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BESSARABIA

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KHOTIN

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sábado, 20 de novembro de 2010

VENCERE,uma versão teatral futurista de um fenômeno psicótico

Vencere,uma versão teatral futurista de um fenômeno psicótico

Há duas cenas no filme que poderíamos dizer que estão próximas da verdade.
As palavras do psiquiatra dizendo que somos todos atores e que o fascismo também passará e a outra é a cena quando a criança chora quando é separada de Charles Chaplin .O resto é puro teatro filmado
Um dos maiores fenômenos na historia da arte foi o Futurismo na Itália fascista .Nomes como o escritor Marinnetti, o arquiteto Sant’Ellia e pintores que se utilizavam da colagem e do grafismo para expressar a dramaticidade do momento.
O filme é uma colagem de cenas onde jorram lágrimas por todos os lados.O uso de documentários e dos recursos de filmagem da filmagem na verdade querem contar uma estória arquetípica recorrente na cultura pagã latina.O romance é o filho produto da relação com o pai,o deus ,o Duce condutor e salvador do povo italiano
Não é um filme histórico é mais estorico e anedótico como escreveu Guimarães Rosa em Aletria e Hermenêutica.Nesta pasta,macarrão embaralhado há um humor trágico que exige uma interpretação mais acurada do que o que pretensamente se sabe sobre o fascismo ( do nazismo ,estalismo,etc).
O arquétipo da Virgem Maria ,do complexo de Édipo só poderia ter como palco um Sanatório (as vezes é difícil saber quem é louco como no clássico “Este mundo é dos loucos” de Philippe de Brocca, onde é difícil saber quem está dentro ou fora do sanatório)O italiano é ambíguo na sua relação a igreja (a mãe) e o poder(o pai) alternando a a dramaticidade operística (as tragédias são cantadas o que as torna num tempo diferente como o cinema..) com o alegorismo kitsch das manifestações políticas (como os autos de fé da inquisição)
O filho não é “pai”, é uma caricatura do pai.Esse é um dos momentos fundamentais do filme onde o filho imita Mussolinni,sua figura hiperealista é muito mais próxima daquilo que fica do Mussolinni “real”.
A mãe (linda como Romy Scneider) é um personagem piegas que esta vivendo a loucura da paixão ,a pior das doenças mentais e a sexualidade o pior dos pecados .
O diretor utiliza-se de um recurso metonímico ao cortar as cenas com fotos de doentes mentais e metafóricos ao repetir as cenas onde a personagem passa por grutas escuras observando como num sonho as imagens que compõe o seu mundo real e mental.
Cenas teatrais como os cegos marchando à frete de dois religiosos e a afirmação de Mussolini :-quando observo esta cena me dá vontade de lavar as mãos...(ou seja esquecer o passado)
A cena no hospital onde na cúpula se projeta um filme lembra com uma freira lagrimejante e um Cristo aterrorizante lembrando a capela Cistina de Michelangelo é fantásticamente alucinógena
Outra cena teatral é quando as doentes do sanatório escalam os portais .
O filme termina mostrando a superficialidade de cenas recorrentes em filmes onde sempre há uma alma boa como a freira que chora e que empresta suas veste para que a personagem possa fugir e reencontrar-se com os fantasmas da sua historia e a falsidade de que o bem vence o mal e que as pessoas realmente boas estão atrás das janelas do carro e passam como imagens de um filme.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

SALÓ,BIG BROTHER e TROPA DE ELITE

Saló,Big Brother e a tropa de elite 2
“milícia existe para nos defender da milícia” Coronel Nascimento

Passolini em seu filme Saló foi o mais extraordinário crítico da história contemporânea Italiana .Com sua câmera procurava revelar com minúcias a realidade imutável da Itália ,um país dominado pela Máfia,pela Igreja Católica e principalmente pela classe política corrupta.
Passolini inspirado em Sade mostra como este campo constituído por este elementos criava monstros para que os membros desta sociedade doentia se deliciassem com a destruição destes personagens cientes de sua própria cruel sado-mazoquista destruição
Passolinni além de cineasta era um literato,poeta e principalmente um profícuo analista político que profetizava o que hoje esta acontecendo na Itália.Passolini foi assassinado pela Máfia com requintes que nenhum cinema poderia imaginar.De certa forma sabia como “a crônica de uma morte anunciada” de Gabriel Garcia Marques que todos de uma forma ou outra suspeitavam de um assassinato
O Big Brother da televisão é o próprio jogo sádico da destruição dos adversários.É está a mensagem que este espetáculo que substitui o futebol,a luta de Box pelo prazer de torcer pela destruição do outro.O ganhador recebe 500mil ,Pedro Bial 800 mil e a Globo milhões.É está a mensagem que os nossos filhos estão vendo na TV (sem falar da Novelas totalmente alienantes).
Entretanto,por sorte ou insistência do diretor Marcos Palmeira é possível realizar um filme extraordinário ,com uma linguagem singular e com atores excepcionais.
Para mim que aprecio o cinema sob a ótica da linguagem e seu significado posso dizer que Tropa de Elite 2 é a narrativa poética deste Big brother brasileiro mais precisamente carioca.Após Glauber Rocha é o primeiro diretor a observar a realidade com uma sensibilidade única da narrativa e linguagem fílmica brasileira.É uma verdadeira catarse,um vômito projetado na tela dos condimentos da realidade atual.
Marcos Palmeitra não é um Tarantino,Coppola,,Clint Eastwood ,Amós Gitai que criaram uma linguagem poética da violência humana (entre países ou urbanas ).
É um cineasta que trabalha com o que existe na televisão e nas ruas com um objetivo corajoso:fazer pensar.Supera a violência de seu dois filmes anteriores com uma trama da cumplicidade ,destruição e auto-destruição sado masoquista que nos lembra o cineasta grego Costa-Gravas em Z que trata da ditadura e o militarismo grego
Tropa de elite deveria ser aparecer no horário político para mostrar que não existem bons ou maus,não há maniqueísmo neste jogo.Todos ,inclusive eu e você que me lê estamos comprometido com esta tragédia.Quando Wagner Montes diz que a milícia existe para nos defender da milícia ele está afirmando que através do nosso medo (fenômeno ancestral) odiamos o próximo,nos armamos,traímos,nos escondemos na alienação mediática ou religiosa e armamos o nosso jogo inconsciente.A propaganda reproduziu milhares de vezes o consumo de álcool e o tabaco como nunca na história.Duas drogas aceitas socialmente e que sustentam a mídia A televisão sensacionalista representada no filme por Fortunato serve como Mobral do medo e da violência.Vivemos numa sociedade onde o “Apartheid” é pior do que a África do Sul e onde a guerrilha urbana é pintada como luta entre entre facções criminosas que são mantidas pelos consumidores de drogas que são da classe abastada onde o contrabando de armas é financiado por corporações bancárias
Marcos Palmeira mostra que todos são “humanos” sujeitos a serem cooptados pelo Big Brother da violência política e criminal

LOS DOS HERMANOS,decadencia vista por decademtes

Los dos hermanos,a decadência vista por decadentes
A resposta parece fácil pois se refere claramente às duas nações cisplatinas Argentina e Uruguai.mas o que torna fascinante neste filme (e em todo cinema contemporâneo argentino)é a tradição narrativa desta cultura “transduzida” ou “transcriada” da literatura para a linguagem do cinema.Desde Martin Fierro à Julio Cortazar passando por Borges os personagens expressam em seu linguajar uma maneira de ser em conflito mágico.
Daniel Furman seu diretor tem esta capacidade rara de perceber como a Argentina,ou melhor a cultura portenha desvela sua decadência olhando ou se espelhando num Uruguai mais decadente,vagaroso quase indo para atrás
São dois irmãos.Uma é uma “perua”que vive uma nostalgia e um teatro cotidiano do “Real State”,uma patologia de compradora de imóveis, do parecer mas um parecer com as luzes doas anos 50 quando a Argentina vivia seu momento áureo.
Outro,seu Irmão,vivendo seu complexo de Édipo através de uma dedicação e amor a sua mãe Neneca.Quando a mãe falece ou seja o passado se apresenta a solução que a irmã dá é exilar seu irmão numa pequena cidade do outro lado do rio,Villa Laura.
A descrição de Villa Laura (para quem conhece as cidades uruguaias é perfeita).Grandes mansões,uma arquitetura dos anos 50,um hotel com seu luminosos,um bar com os mesmos velhos jogando seu truco e um esplendoroso teatro vazio
Enquanto a irmã tenta superar sua decadência em experiências de trabalho novas e que nunca dão certo culpando a todos inclusive à sua família representada na festa de aniversário de sua tia Lala seu irmão parece encontra-se numa representação nova desta tragédia através do grupo de teatro dirigido por um diretor fracassado e com devaneios de genialidade tentando encenar uma versão contemporânea de Édipo rei de Sófocles.A representação na verdade é uma cópia de uma versão surrealista aparentemente avançada de teatro .Buenos Aires sempre copiou o que havia de melhor na Europa e também sua produção artística sempre expressou o que havia de mais progressista no mundo em todos os tempos.
Há cenas sutis que fazem pensar.Por exemplo a maneira como o diretor vê a festa na Embaixada do Brasil onde há um “macaquito” discursando no meio de pessoas fantasiadas de elegância.É hilário ver o irmão colocando em seu bornal os salgadinhos É assim que os argentinos nos vêm.
Ou a cena em que a irmã pergunta ao seu primo judeu Saul como estava Israel com a preponderante ironia contra aqueles judeus portenhos que foram para Israel obrigados pela crise econômica e nunca se adaptaram voltando pior do que estavam.
A festa de aniversario é tragicômica selada após uma violenta agressividade da irmã contra todos (que representam a Argentina atual) com um bolo todo amassado .O presente que a irmã dá ao seu irmão “o roaming” no seu celular que permite com que os dois lados se falem
Do lado Uruguaio há personagens felizes como a garçonete do bar que mostra (como na nouvelle vague) como se pode ser feliz pilotando uma motinha,o marceneiro que joga xadres.
Os personagens da cidade se tornarão personagens da peça teatral e é através da representação no teatro que e os dois irmãos podem de novo se encontrar.
É emocionante se encontrar redescobrindo o valor de cada um com suas peculiaridades.
Terminado o filme há ainda um presente aos espectadores com a apresentação de um sapateado e a cena fantástica quando aparecem os jogadores de dados apresentando uma obra contemporânea baseada nos seus sons.Isto é para nos ensinar o que é a releitura ou transcriação de uma cena prosaica

domingo, 17 de outubro de 2010

BAARIA a porta do tempo

Talvez pudéssemos começar este texto com um adjetivo afirmando que é um filme lindo com cenários fantásticos da Cicília com sua arquitetura peculiar e sua cultura singular, com seu dialeto,costume,folclore,misticismo e a trilha sonora de um dos maiores músicos contemporâneos ,Enzo Morricone.Um filme nostálgico que lembra os clássicos filmes como “Os companheiros” de Mario Moniccelli cuja narrativa heróica conta dentro de uma perspectiva marxista revolucionária a história de uma geração de trabalhadores italianos e sua relação com a máfia,o fascismo,a igreja católica,etc.Este filme longo (em alguns lugares era projetado em duas partes) emocionou toda uma geração de jovens que acreditavam numa utopia possível.
A Itália e o mundo não é a mesmo.Uma país controlado por um outro “duce” ridículo dono de um império mediático que transforma esta Itália com suas diferenças numa meleca medíocre só comparada à televisão brasileira.
A Itália vive um fascismo mediático (como no Brasil) que não só destrói o espírito de luta da cultura peninsular como tenta destruir todas as manifestações artísticas entre elas o cinema.
Para conhecimento dos que me lêem só em países onde o cinema é completamente independente da televisão e onde a televisão não pode produzir seus programas ou filmes (comos nos Estados Unidos,França,Alemanha,Israel,Argentina,Índia,Egito,etc) há uma verdadeira industria cinematográfica. O cinema no Brasil hoje é totalmente dependente das redes.Por isso a pequena e péssima qualidade das nossa produções
Este filme só foi possível paradoxalmente com financiamento americano. A obra de Tornatore é uma verdadeira guerra contra o mesmismo .É uma obra de arte e uma lição de linguagem ,portanto, de tempo-espaço.
O cinema não é uma verdade (nem o documentário),É uma maneira de contar uma história.
O filme que mais explicita o que estou tentando dizer é” Lola ,corra Lola “de Tomas Tikwer onde uma história é contada de diversas maneira diferentes mas o centro é o que sente a personagem.Neste filme a forma recorrente é a espiral.É um movimento relativo ao centro.
Baaria é construida (literalmente como um conjunto de cenários se transformando) por uma complexidade de simbolos.
Primeiro o Pião circulando como um movimento contínuo que nos coloca a questão arquetípica do que é o centro,o nosso centro,aquilo que somos?O que gira em relação a um ponto,uma espiral?
Segundo o jogo.A vida é um jogo,o cinema se utiliza basicamente de um jogo de imagens.As cartas que vão se compondo como a edição Um desafio que é o começo de outros.Tornatore pensa como cineasta que trabalha o tempo todo com a metonímia.A parte que permite a compreensão do todo
É preciso entender a associação entre a corrida e o cinema ou mais propriamente o celulóide girando em torno de um ponto passando por um forte luz que projeta imagens .Ponto,linha e luz.
O garoto Cicco vai passando pelas imagens numa velocidade que só o cinema pode expressar e esta velocidade transcende (como o arfar e cansaço) e nos leva a uma sensação transpessoal (que a poesia ou a droga dá) da emoção .Só através deste tempo-espaço diferenciado é possível sentir a beleza deste nosso mundo com todas as suas contradições e agruras.O verdadeiro poeta,o escritor,artista e o cineasta procura na sua linguagem tornar este mundo algo diferente que possa ser visto (ou melhor enxergado).
O filme trata do sonho.Como um sonho ,sem tempo.Quando Cicco de castigo na escola dorme e acorda 60 anos depois.
O que quer dizer isto?Nós de certa forma hibernamos num certo momento de nossa vida (narcotizados pelos valores da sociedade,educação,trabalho,medo,etc) e de repente por alguma razão acordamos neste mundo caótico,incerto onde o vazio espacial da nossa infância é preenchido pelo congestionamento das cidades poluidas.
Tornatore mostra que neste mundo existem pessoas que continuam iguais como por exemplo o cambista de dólares que depois se torna vendedor de canetas no mesmo lugar.A Máfia,as instituições públicas (como o chefe corrupto do departamento de urbanismo que é cego e decide mediante o pagamento explicito (parecido com o nosso,né?),A igreja como instituição imóvel do principio ao fim .Mas apesar disso há dentro de algumas pessoas sentimentos profundos de amor,amizade,humor.
O comunismo não é o de Moniccelli onde o marxismo é uma ideologia indiscutivelmente lógica moral e ética
O comunismo de Bagheria (cidade onde Tornatore nasceu) é a cara da Cicília com o fervor religioso , o amor pela justiça com alegria e sofrimento.
A vida é muito rápida ou “passa depressa” mas todos temos o livre arbítrio de organiza-la como um filme
Nesta obra há um cinema dentro do cinema.O cinema mudo acompanhado pelo piano e um personagem que lê as legendas e que dá o tom da obra ridicularizada por Ciccio,ou seja o mundo é a maneira e o tom como é lido.Os pedaços de celulóide dos grandes filmes vistos por Pepino que lembram o clássico Paradiso do próprio Tornatore A cena em que se filma a grande mansão antes proibida com seus monstros ( para quem desconhece é o palácio do conde de Bomarzo,um aristocrata enlouquecido que o construiu)O cinema como espaço arquitetônico, a televisão emergente e sua bestialidade.
O misticismo representado pelos ovos que se quebram numa cesta e jorram pelo chão.
As imagens dos rostos que vão se transformando( e as vezes confundem o espectador porque não só envelhecem como rejuvenescem) O filme vai e volta.Como a estranha personagem de luto que se parece a mãe de Ciccio e seu filho sempre lembrando sua noiva (que noiva? Um compromisso com o passado misterioso da Cecília?)
Enfim qual é o significado do mistério das três pedras atingidas pela mesma pedra.Porque não é a riqueza que a mitologia prevê mas a infinidade de cobras ?
Esta riqueza não é o dinheiro mas um desafio infinito de cobras ,serpentes que desafiaram as pessoas como Pepino em sua vida e carreira política.
Viver é ter desafios (e amar profundamente).
Há menções recorrentes sobre a velocidade ,como os deficientes se relacionam com o mundo e sobre a linguagem .Por exemplo o que queria dizer o ferreiro ( com dificuldades para falar)pedindo uma mosca e colocando esta mosca abaixo do pino do pião.Há também imagens recorrentes de construções,da transformação da cidade,a urbanização caótica e quando Pepino passa a ter dúvidas observando o Polvo cozido sendo representado por diversas espirais que se unem pela imensa cabeça do animal.
A cena final que repete a primeira cena conclui com a quebra do pião ao meio e a aparição de uma nova mosca mostrando claramente o mistério do renascimento.
Terminado o filme já não somos os mesmos.O nosso coração bate.Há lágrimas no nossos olhos.Vemos o filmes do próprio Tornatore em sua infância atrás dos títulos e a música de Morricone e uma vontade de encontra o nosso anel brilhante e de fazer o nosso próprio filme.

Queridos amigos participem deste nosso grupo de amantes de cinema acessando o site.Êle está cada vez maior e com gente interessantíssima .Há idéias excelentes também e você pode contribuir com a sua.
www.riscodearriscar.blogspot.com

terça-feira, 14 de setembro de 2010

BAL,mel

BAL,mel
Um filme sobre a doçura , afeto e o som do silencio
Qual é a relação desta narrativa que começa com a morte e termina com o sono ambos ligados à uma arvore?A primeira cena é um galho que se quebra e um corpo que cai e a ultima é um garoto dormindo junto a uma imensa arvore.O que significa isto?qual é sua mensagem .Qual é o som desta cena?o que pode dizer o silencio de uma arvore?
Esta narrativa é construída pelo som ,pelo sussurro das relações entre o homem e a natureza.
O que significa o caminhar pelos campos de trigo.Êles dizem alguma coisa?Qual a importância do gorjear de um falcão que indica os caminhos certos
O que permeia todo o desenrolar deste filme é a doçura e afeto na relação de um garoto com dificuldades para se expressar verbalmente .Yusuf sabe ler , ouvir e ver muito mais do que a maioria das pessoas, Yusuf se comunica através do silencio,observa o mundo,os elementos que o compõe,seus espaços ,objetos,instrumentos com uma delicadeza própria de uma criança singular que brinca com um cuidado único.
Não há um único sorriso no filme
É um filme sobre a lingua a fala a escrita e a linguagem cinematográfica
O mel é o fluido desta cultura e seu produtor Dos insetos conhecidos sabe-se que a abelha parece ter sua forma peculiar de se comunicar entre si mas é o que produzem que tornam o homem mais terno
É um filme onde alguém que não sabe se relacionar com o mundo pela fala pode entender a dimensão do afeto mais silencioso da natureza,das plantas,flores.
Há um mito paradoxal na afirmação do pai de que os sonhos não podem ser contados.De certa forma os sentimentos mais fortes não podem ser representados
As imagens parecem com quadros expressionistas ,escuros,focados em alguns elementos.O autor está dizendo,ou melhor,ensinado o espectador a observar as pequenas coisas iluminadas
É interessante a relação que o autor faz entre a gaguice e o acender e apagar das luzes como se fosse um exercício de observação diferenciado.Entre o todo iluminado,o que se pode ver em segundos e a memória
O cuidado que o diretor tem com seus personagens faz com que cada momento seja um capitulo.O exemplo mais forte é a beleza da integridade do professor que tem afeto por seus alunos e os ensina a não excluir ninguém.Na premiação final (tão desejada por Yusuf) há somente misericórdia,afeto compartido por uma comunidade que intui é o que é o amor.
A beleza é doce como o mel.A oração das mulheres re-escreve através do mito do anjo Gabriel a dor da perda.As danças de roda ,o enrolar das cordas o ascender dos objetos por cordas e o baixar dos favos de mel e sua arquitetura , o prazer de prová-los
O afeto que Yusuf tem por seu amigo Hadim é tão grande a ponto de presenteá-lo com o que tinha de mais valioso,um navio O ouvir da poesia da coleguinha e sua perseguição até encontrar uma grande ponte e o sentir suave do laço perdido pela menina e o exercício de cegueira,outra maneira de enxergar o mundo
O filme se desenvolve vagarosamente para que o espectador saboreie as cenas como pinturas ou cartões postais da época Otomana.
A relação entre Yusuf e seus pais é tão amorosa e os momentos que mais nos comovem é quando o colocam sobre seu colo ou o colocar suave da mão na cabeça ou o sussurrar ou a cumplicidade doce do copo de leite.Cenas tão lindas vivenciada pelos privilegiadas que já tiveram pais ou avós
Esta imagem quase desapareceu no mundo ocidental substituída tão somente pelo castigo ou a sexualidade.Lá Yusuf tem seu lugar,seu pedestal que não é o mesmo da sociedade tão somente verbal
Diferentemente da cultura ocidental que exige um começo,meio e fim esta narrativa não é um mosaico com flash-backs usuais mas é a colocação de uma pergunta.O que aconteceu no começo e qual o significado do fim ?
Para o Yusuf foi a descrição proibida do sonho por sua mãe relatando o encontro de todos na floresta colhendo e saboreando o mel. Descrever nesta cultura é prever de certa forma e determinar o futuro no tempo e espaço
Dormir com um árvore é guardar os sentimentos mais profundos e transcendentes e procurar entender de outra forma o mosaico de sons num contexto de dor .
Abracei a grande árvore que vejo todos os dias em minha casa.Ventou a noite toda,ouvi o cair dos galhos e o som dos pássaros noturnos.Quando abri a veneziana vi os galhos e folhas dispostos como uma obra divina.Resolvi andar descalço e ouvir
a lição deste doce filme.Ouvi as Jatobás minha lindas amiguinhas que se mudaram há anos entre os tijolos da casa.Imaginei quanto mel deveria ter.Olhei seus lindos pórticos de cera,suas vizinhas formigas com sua arquitetura e as teias das aranhas.Neste momento caiu de repente um maracujá .Era doce,muito doce.Lembrei-me de meu pai e o enorme caramanchão de maracujá que tínhamos na Vila Mariana e de como pegava a fruta transferindo-a com todo cuidado com suas mãos de alfaiate e escritor e como saboreei esta fruta me lembrando desta mesma doçura e elegância .Preparei um suco para minha filha mas acabei servindo aos meus amigos mas há muitos ainda no chão do jardim.

BAL,mel

domingo, 15 de agosto de 2010

UM BRILHO DE MULHER

A única maneira de se entender a linguagem deste filme da mesma diretora de “O Piano”é reconhecer que existe uma forte linguagem cinematográfica feminina,um brilho que só a mulher pode ter,que se diferencia da do homem que tradicionalmente dominou a historia do cinema.
A grande precursora desta linguagem cinematográfica feminina foi Agnes Varda a diretora francesa que nos anos sessenta mostrou através da película cinematográfica a cor do amor.Em “Le Bonheur” ,as duas faces da felicidade, a relação amorosa se dá num cenário impressionista como se os personagens estivessem saindo de uma tela de Monet embalados por uma musica de Debussy.
O que sustenta “O brilho de uma paixão” é a trama poética como tessitura de uma teia de aranha que vai capturando os personagens em suas distancias que vão diminuindo aos poucos pelo estigma da doença dos poetas e a dor das amantes.
Como define um dos personagens”o poeta é que esta dentro do poeta e não é o poeta” parecido com a frase de Fernando Pessoa
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente “
O que a diretora mostra que a costura não é “fashion” ou “moda”.A arte da costura tem uma complexidade da matemática e arquitetura e aí se aproxima da poesia que é a verdadeira essência das construções sejam ela literatura,do cinema e das artes .Ela também é uma dobradura como um origami que vão se dobrando e desdobrando como o amor e a paixão num contexto histórico sombrio desconhecido.
É um cenário familiar,sólido,doce onde é permitido ser criativo mas a doença permeia a criação
Na verdade são três personagens ,os poetas Keats e seu amigo Brown e Fanny a “designer” dos lindos trajes exóticos que permeiam as diversas cenas do filme.A relação entre os dois poetas onde um tem um humor mordaz e um senso de realidade onde o amor é uma relação oportunista que o leva a engravidar a criada mas ao mesmo tempo uma fidelidade ao amigo e ao seus princípios Fanny escrevendo através do tecer,do compor (muito bem percebido por um provocante Brown) como forma de conquista e aí também há uma relação com a dança das borboletas Há também a sutilidade das dobraduras como crisálidas que encerram palavras escritas com caligrafia portentosa .A caligrafia como arte também é infinita mas a forma como se apresentam é uma lição de conteudo e continete
A diferença entre “O Brilho de uma Paixão” e o “Piano” da mesma diretora é a relação silenciosa entre dois seres através da musica e do objeto da musica,o piano.Esta é a tessitura do amor entre uma surda-muda e um simples mestiço da Nova –Zelandia.
È bom lembrar outro classico “A festa de Babette” onde há também uma linguagem poética que se expressa através dos alimentos da composição dos pratos e talheres,a beleza das comidas e que constrói uma relação entre os personagens que ao fim termina com uma grande roda
Também a película “Como água e Chocolate” há uma estética da comida como linguagem que perpassa uma relação de amor .

Seja um banquete,a musica ou a costura há uma essência comum que á a vida mas é seu brilho que só alguns artistas podem ver

Participe deste debate acesse www.riscodearriscar.blogspot.com